A educação no Maranhão vive um paradoxo intrigante que reflete tanto os avanços quanto os desafios persistentes do estado. Por um lado, gestores municipais e estaduais têm sido agraciados com medalhas de ouro em premiações relacionadas à educação, muitas vezes celebradas como reconhecimento de esforços para melhorar índices educacionais e implementar políticas inovadoras. Por outro lado, o estado mantém uma das maiores taxas de analfabetismo do país, ultrapassando 12% segundo dados recentes do IBGE, mais que o dobro da média nacional. Essa discrepância se torna ainda mais alarmante quando examinamos os escândalos de desvio de verbas do programa Educação de Jovens e Adultos (EJA), que deveriam ser a principal ferramenta para combater esse analfabetismo.

As medalhas de ouro conquistadas por gestores maranhenses frequentemente estão atreladas a iniciativas como o programa Escola Digna, a redução da evasão escolar e até mesmo a diminuição relativa da taxa de analfabetismo em alguns municípios, como os inseridos no Plano Mais IDH. Esses prêmios, concedidos por entidades públicas ou privadas, destacam casos de sucesso que, em teoria, demonstram compromisso com a educação. Nos últimos anos, o Maranhão foi apontado como o terceiro estado com maior redução percentual no analfabetismo entre pessoas com 15 anos ou mais, caindo 5,8 pontos percentuais entre 2010 e 2022. Esse progresso, embora significativo, mascara uma realidade mais complexa: mesmo com tais avanços, cerca de 15% da população adulta ainda não sabe ler nem escrever, um índice que reflete décadas de desigualdades históricas e falhas estruturais.

Nesse contexto, os escândalos de desvio de verbas do EJA jogam luz sobre uma das possíveis causas dessa persistência do analfabetismo. O Tribunal de Contas do Estado do Maranhão (TCE-MA) estimou que cerca de R$ 1,5 bilhão destinados ao programa foram desviados por prefeituras em diversas cidades. Investigações revelaram práticas como a matrícula de “alunos fantasmas” – incluindo pessoas já falecidas – e a falsificação de dados sobre escolas de tempo integral que, na prática, não existem. Em Turiaçu, por exemplo, uma cidade de 35 mil habitantes declarou possuir 63 escolas em tempo integral, mas fiscalizações não encontraram nenhuma. Em São Bernardo do Maranhão, justificativas frágeis, como parcerias com agentes comunitários, foram usadas para encobrir irregularidades. Esses desvios não apenas dilapidaram recursos que poderiam ter alfabetizado milhares de jovens e adultos, mas também comprometeram a credibilidade das políticas educacionais premiadas.

A relação entre as medalhas de ouro e os altos índices de analfabetismo, portanto, sugere uma desconexão entre o reconhecimento oficial e os resultados efetivos. Enquanto alguns gestores recebem louros por melhorias pontuais ou por campanhas bem-sucedidas de marketing institucional, o desvio de verbas do EJA evidencia que parte desses avanços pode ser superficial ou inflada por dados manipulados. O prejuízo vai além do financeiro: é um golpe na esperança de uma população que depende da educação para romper o ciclo de pobreza. O Maranhão, apesar de seus esforços louváveis, continua refém de uma gestão que, em muitos casos, prioriza aparências em detrimento de transformações reais. Até que os recursos sejam aplicados com transparência e eficácia, as medalhas de ouro correm o risco de se tornarem símbolos de um progresso incompleto, enquanto o analfabetismo permanece como uma sombra persistente sobre o futuro do estado.

Da Redação.